Quando o Alvaro acordou naquela quarta-feira, tudo seguia a rotina diária. Fez uma xícara de café, pois não precisava mais do que isso. Escovou os dentes, enxaguou o rosto, calçou o chinelo, acendeu um cigarro e foi à banca de jornal. Assim tinha sido na segunda e na terça.

Na banca, o aceno de sempre ao Seu João, a Folha de S. Paulo de sempre, o abanar negativo de cabeça com o Governo, tal qual sempre, e uma corrida na seção de obituários do jornal, como era de costume.

O Alvaro não notara que o Seu João sequer o tinha reconhecido, porque era o de praxe também. A única coisa incomum daquele dia estava na página 5 do caderno de Cotidiano da Folha. Mais precisamente meia página abaixo, sem lá muito destaque salvo pelo nome que, até então, era motivo de piada pela semelhança com o Alcoólicos Anônimos:

Alvaro Araújo, aos 32, solteiro. Cemitério de Vila Alpina.

Era o primeiro da lista de mortos daquela edição, que sempre vinha em  ordem alfabética. Como o jornal fecha normalmente lá pelas dez horas antes de ir para a prensa, ele havia morrido ontem. Mas mortos não compram jornal, fumam um cigarro ou escovam os dentes. Para botar a coisa a limpo, Alvaro acendeu mais um Marlboro. A idéia bizarra de já estar morto e não sofrer dos males do fumo lhe veio no mesmo instante, em uníssono com um riso.

"É a Folha, e eles sempre erram", foi a primeira coisa que pensou. Depois lhe veio o fato de que poderia ser um honônimo, com os mesmos 32 anos e a mesma solteirice. O que não deixaria de ser tão estranho quanto encontrar o nome no obituário, por sinal.

Ao entrar no bar e cumprimentar o Manoel, a mesa de sempre estava reservada, com dois lugares, sendo que só um era usado, pois Alvaro estava por lá sempre sozinho, com um bloco de notas e alguns textos, ora no papel, ora na cabeça. Até que ela entrou, puxou a cadeira, pediu uma cerveja e sentou.

- Oi…

- Oi…

- Leu o jornal de hoje?

- Um pouco. Está sempre tudo muito igual.

- Menos os óbitos, que sempre mudam.

- É estranho, o de hoje veio mais diferente do que nunca.

- Eu sei, eu coloquei seu nome lá.

- Então foi você? Mas como o jornal aceitou o anúncio sem o atestado de óbito?

- Está atestado. Ah, desculpe minha má educação, eu sou A Morte.

- Claro, e eu sou Clark Gable, mas acredito que você já tenha reconhecido por causa do bigode…

Para uma manhã como sempre, estava um tanto diferente e corrida aquela de quarta-feira.

- É sério…

- Sei, sei… A Morte é linda, loira, e eu casaria com ela fácil…

- Faz parte do projeto. É para não assustar muito quando se vê. Assustamos antes, com aquela história cafona da foice e tudo o mais.

- Eu também prefiro assim… mas vem cá, porque eu morri?

- Ah, é uma longa história, mas tem a ver com seu jeito de vida patético e estático.

- Estático?

- É, a mesma coisa de sempre. Café, escovar os dentes, lavar o rosto, bebida antes do trabalho, depois do trabalho, cigarro. Você estagnou Alvaro, e vimos que era melhor deixar outra pessoa ocupar seu lugar.

- Claro, eu também acho… mas e o Céu, ou o Inferno, ou o Limbro, aquela coisa toda?

- Não sei… despesa de custo demais para alguém que está tão acostumado à rotina.

- Então?

- Então acho que vai ser assim para sempre…

- Ok, mas o que você vai fazer essa noite?

- Eu ainda não sei. Talvez ceifar alguém. Você, como sempre, virá ao bar, vai encher a cara, voltar para casa e, amanhã, recomeçar tudo de novo.

E assim foi, cada dia igual ao outro a ponto de se confundirem, com o Alvaro perdendo-se na multidão e sendo esquecido. Inclusive pela Morte, que não publicou sequer um mísero anúncio de Missa de Sétimo Dia.