O copo de cachaça olhava para ele. E, mais impressionante, falava com ele.

- Ei, mais um gole! Vai, não seja fraco…

Ele olhava para o copo. Mais estranho ainda, sentiu que precisava conversar, responder, sorver até o último gole dela:

- Não posso querida, amanhã eu trabalho…

- Vai, é só um golinho, amor. Vai deixar o garçom me jogar fora?

Desde a última reunião do AA, ele não bebia. Isso foi há duas, três horas. Um dia antes, tinha conversado com um copo de tequila.

- Você fala igual minha ex-mulher. Eu achei que tinha trocado ela por coisa melhor…

- Pelo menos eu não te convido para ir na casa da minha mãe todo domingo.

- Mas eu sairia no lucro, sua mãe mora num alambique.

- Ia beber dela, seu safado?

- Depende, se for tão boa quanto você…

Aquilo era um elogio, mas ela, obviamente, não entendeu.

- Seu, seu…

E o copo começou a balançar na mesa, inexplicavelmente, indo em direção a ponta. Antes mesmo que ele percebesse, espatifava no chão. A cachaça corria em direção à rua, tal qual sangue. Ele, impassível, olhava e dizia ceticamente:

- Ainda bem que essa louca me deixou. Nunca vi, se matar só por causa de um golinho na mãe. Quer saber, eu vou é para a caça. Garçom!

- Pois não senhor?

- Que idade tem aquela marca de uísque?

- 12 anos senhor…

- Hum, uma ninfeta. Traz a garrafa!

- Psiu, olha aqui gatinho, que tal dar um trago? - perguntou a caixa de Marlboro, com o olhar lânguido.