Mulheres demais - Rex StoutAugust 31, 2006 2:08 pm

CAMARADAS BLOGUEIROS!

Neste 31 de Agosto comemora-se o Blog Day, data instituida pelo governo norte-americano ianque para que consumíssemos de forma desenfreada produtos ligados a blogs e para que linkassemos camaradas no espaço destinado para que pudessemos fazer a Revolução, companheiros!

O Blog Day é tratado como uma festinha, companheiros! O que eles não dizem, é como o blogueiro é mau tratado pela sociedade atual contemporânea, companheiros! Como o blogueiro é visto como um pária social largado a margem da sociedade atual contemporânea, companheiros! Precisamos mudar, mudar tudo! Mudar, destruir o Castelo de Areia do Fernando Vanucci, companheiros! Precisamos ser mais companheiros, companheiros! Está na hora dessa gente linkada mostrar seu valor, companheiros!

É preciso que o blogueiro seja tratado como gente, companheiros! É preciso que o blogueiro tenha direito a saúde, educação e saneamento básico, companheiros! É preciso lan-houses populares, companheiros! É preciso spam sem preconceito, companheiros! We are the world, companheiros! Sabe, ontem, eu tive um sonho companheiros, um sonho, onde todos os blogueiros eram iguais, independente se zip.net, blig ou blogger, companheiros!

PRECISAMOS ACABAR COM TODO O PRECONCEITO CONTRA OS BLOGUEIROS, COMPANHEIROS!

Sabe o que eu farei agora, companheiros!

Agora eu vou montar uma comunidade no orkut pela Revolução, companheiros! Vou entrar no MSN e conversar com os links companheiros do meu blog, compaheiros! Companheiros da Finlândia, de Curitiba, Minas, Ubesquistão. Um dia a gente se vê, companheiros. A LUTA CONTINUA! COMPANHEIROS!

(Alguém me dá presente? Quem sabe assim, blogueiro vira gente?)

E os cinco blogs indicados no blog day são:
*rufem os tambores*

Lelê: escrito, dirigido e protagonizado por Leonor Macedo, trata do cotidiano da mesma e outros assuntos com texto ímpar, engraçadíssimos e com aquela sensação de "um dia eu mijo nas calças lendo esse blog, rapá!!"

Lilhoca: a ovelhita tem o humor mais nonsense de foda de bom da Terra. E ela ainda conta história de putaria como ninguém, minha gente! Como se não bastasse, publica fotos de calcinha.

Gabi: se um dia eu precisar de diálogos, eu chamo essa mulher! E se precisar de qualquer coisa em avesso perfeito, também chamo! O post da Zara, segundo a Organização Mundial dos Blogueiros (uai, se temos dia, temos a OMB!), é o terceiro melhor já escrito no mundo.

Junior: se o mau-humor quisesse montar um blog, ficaria sem url.

Eric: se algum nariz bem grande quisesse um blog, ficaria sem url.

Alê Félix: se o dêmonio tivesse um blog, daria a url para a Alê.

Zé Buerão: emo, indie e de polainas. Imperdível!

Théo: mas pode chamar de Ronald Rios. Ou de Eric. Ou de Manson. Ou de…

Tiago: cinema, um banquinho e quatro gaúchos sentados. Além de campeão da América, é claro (trecho previsto de comentário do mesmo).

Penin: fã-clube do Delfim Netto e escavação de dinossauros, incas, fenícios, hebreus, telletubies. E desviem da pedradas.

Bruno da Vila: o cara que me linkou no blog day dele. *e eu bancando o companheiro blogueiro filho da puta*

AH, companheiros, última demanda da nossa comunidade, céito: CINCO links para o blog day é um caraleo, companheiros!

Não deixem de visitar www.blogdoalemao_pancadao.blogspot.com. É um tal de Marcos, Marques, Marx, sei lá. Miguxo gente boa, companheiros!

E Parabéns...August 30, 2006 2:06 pm

Esperávamos diversas situações para a manhã de hoje, manhã esta onde quase, eu disse quase, todo mundo (não é, Eric?) acordou cedo, cientes da missão de importunar acordar a Gabi para dar-lhe os parabéns pelos 29 anos (porém com uma cútis de debutante, minha gente) de vida.

Exemplo: poderíamos chegar lá e descobrir que ela esconde um harém no armário, com 37 homens entre caucasianos, negros e chineses. Ou descobrir que a Gabi tem um tórrido caso de amor lésbico com uma ruiva de 1,70 metro que atende pela alcunha de Gostosa e fotografa para sites pornôs lésbicos como ninguém.

Poderíamos ainda descobrir que sim, ela acorda com o bom humor no teto, já maquiada e com um vestido da Zara. Ou que realmente a Gabi não dorme, pois estaria com o som no último volume, irritando vizinhos que, por conseguinte, irritariam o porteiro guatemalteco (ou de qualquer outro país subdesenvolvido que não o Brasil) e este choraria na ONU por uma intervenção pacífica.

Então munidos de um café da manhã nababesco selecionado por Alê Félix, (nababesco mesmo, capaz de alegrar o mais cético dos famintos na África), de DVD’s do Tarantino com uma caixa lindamente confeccionada pela Lilhoca, chocolates suíços suecos finlandeses belgas selecionados pelo Junior, fotos de homem pelado levadas pelo Daygo, conference call de sono e risos gentilmente cedido pela Lelê e atraso do Eric, lá fomos nós encontrar Ana Gabriela de juba (desvia da pedrada) e uma cara de:

- CARALEOS, E A VIDA SEXUAL DE VOCÊS?

Aí ela lembrou que a maioria tinha blog, e que vida sexual e blog não dá nem rima.

E cantamos parabéns, desejamos felicidades, aquela coisa toda das efémerides. No fim, creio que não conseguimos fazer um aniversário à altura dos 1,60 metro da Lôra, figura magnífica que faz o povo se reunir num sábado às 11 horas da noite, com 11 graus de temperatura, para assar carne na laje alheia. Ou que convida o povo para ensinar o Eric, sempre atrasado, a andar de bicicleta. Ou que ensina a ler novos gêneros literários enquanto faz ponto cruz. Ou mesmo que faz guerra de travesseiros com a Lilhoca e a Carol e manda fotos para os amigos desfrutarem. Também pudera, se ultrapassássemos todas as virtudes da aniversariante, teríamos de trazer o Canavarro pelado. E eu não sei se o Real Madrid liberaria. Não sem uma módica quantia: metade do PIB brasileiro.

Mas eu sei que não conseguimos porque não tinha a Gabi organizando junto. Se a figura participasse do evento, ela acordaria com dançarinas francesas, meia seleção da Itália e muito, muito chocolate. Tudo isso, é claro, devidamente enfileirado em ordem alfabética. E o Eric chegaria as seis da manhã, conforme combinado. Porque ela bate forte, no melhor estilo Rocky Balboa.

Parabéns Gabi. E no ano que vem, comemoraremos com um sarau de Balzac, certo?
*desvia da bomba nuclear*

Mulheres demais - Rex StoutAugust 29, 2006 5:06 pm

Todo mundo sabe, e lê, que isto aqui é um antro do Fracasso. Isso mesmo, com "F" maiúsculo.

Afinal de contas o Imperador não rende 3 mil comentários por dia, 48.500 page views, essa porra toda. Se alguém fosse anunciar um produto neste blog, talvez eu conseguisse um patrocínio do Boteco do Fumaça. Talvez.

Dadas as condições para este fato, vi como única alternativa assumir de vez o Fracasso. É, abraçá-lo e convidá-lo para uma cervejinha de vez em sempre. Só que, ao que parece, nem o Fracasso quer dar as caras por aqui. Deve ser algum problema com a Nova Schin, né Fumaça?

Uma das condições para assumir de vez a condição de Loooooooooooooooser é entrar na comuna Blogueiros Fracassados, onde 483 blogueiros lutam para ver quem consegue passar o Arnaldo Jabor no que diz ao fracassado-mor da raça humana. É uma espécie de Nêmesis da Blogueiros, comuna com 2.908 pessoas que decidem o futuro da humanidade e pelo menos metade faz/tem vontade de fazer spam. Na comuna dos Fracassados, assumi com tanto fervor o papel que até criei um blog, um dos 14 ao todo, entre mortos e feridos: o Fracassados uma ova!, momento onde a auto estima alcançou níveis estratosféricos e eu não mais me achava o Marcelo Augusto do mundo blogueiro.

É óbvio que o Fracassados uma ova! virou um fracasso e, assim sendo, eu não poderia ficar de fora da maior competição sobre o tema, depois das Olímpiadas de Inverno: o concurso Blogueiros Fracassados, realizado na comunidade supracitada. É gente tão fracassada que nem ao menos um nome decente para o concurso sai dali. Pois bem, neste concurso, óbvio, eu me candidatei, com esperanças de ser campeão, alcançando o primeiro lugar. Já pensei no discurso da vitória depois que este espaço fracassado ganhou uma definição maravilhosamente fracassada:

"Julio, http://oimperador.blogsome.com/, sabe, alguns dizem que os cachorros se parecem com os donos. Se a regra vale para blogs, acho que se eu visse o Julio, vomitaria."

Depois de uma dessa, nada mais me separaria da vitória. O Franz, camarada corinthiano e piritubano, também participava e, de minha parte jogando a modéstia lá na puta que o pariu, recebeu uma descrição menos fracassada.

Já tomando o cinturão de peso-pesado do Paulo Ricardo, descubro que não ganhei como maior fracassado. Impossível, pensei! Uma das pessoas que analisaram tem um flog, meu Deus! Deve ser isso, gente assim não discerne o fracasso! Não é possível, mesmo eu querendo - a ponto de entrar numa comunidade sobre o assunto - não consigo ser um blogueiro fracassado!

É por estas e outras que, com a licença de todos, vou ali fazer um teste de aptidão. Quem sabe eu consiga juntar o Millie Vanille de novo. Ou montar mais um blog para ser um fracassado completo.

Os cães ladram - Truman CapoteAugust 28, 2006 5:11 pm

Previously on Lost Post

*fade in*

- Na última vez que nos vimos, prometi que você morreria se eu o visse de novo!
- Eu lembro, eu lembro. Um encontro amistoso demais, sem dúvida.
- Então, agora é a hora?

*fade out*

Quando alguém com uma força considerável aperta seu pescoço, a sensação é de que algo vital e muito frágil vai partir tal qual um biscoito chinês. Pena que, neste caso, quebrará para o azar, e não para a sorte. Era assim que o Caixa via o mundo naquele instante: um naco de carne de gato na sarjeta estava mais vivo do que ele, que tinha nas mãos do Hóspede o início e o fim de seus problemas com a coluna.

- Eu não faço a menor idéia do que…

A respiração ofegante denunciava que a dor era insuportável.

- Não faz? - disse o Hóspede, aliviando a mão - Tem certeza? Não foi o que o Visitante me disse!
- Ah claro, o Visitante! Aquele mesmo que te enganou outras vezes, certo?
- Me enganar é o esporte favorito de três em cada dois ladrões…
- E o Visitante já ganhou tantas medalhas quanto a maldita União Soviética!
- O problema não é ele por aqui!
- Nem eu!
- Então, qual é o problema?
- Seus dois mil que me roubaram ontem!
- Claro, alguém roubou meu dinheiro? O mesmo que você havia roubado, aposto?
- Sim… talvez um ladrão crédulo que quer 100 anos de perdão.
- Boa, muito boa. Você deveria ser comediante. Pena que você não passará de um monte de ossos se soltar mais uma piada infame.
- Seguinte, ontem eu estava com a sua grana, daí bem, eu precisava de uma Acompanhante. No outro dia acordei numa banheira cheia de gelo.
- Ela levou a maleta e seu rim?
- Não, ela tinha uns fetiches bizarros. Me deixou lá na banheira e levou a maldita maleta.

Aos poucos, o tom inicial da conversa arrefeceu. Não era mais o pescoço do Caixa que estava nas mãos do Hóspede, mas sim uma arma. Para o Caixa, continuava tão assustador quanto antes. Ao fim da conversa, a despedida foi de uma cortesia que assombrava:

- Na próxima, Caixa, aquele naco de carne na sarjeta será maior. E de péssima qualidade…
- E eu aposto dois mil reais que isso não acontecerá… - retrucou, seguido de uma piscadela.

Andando por caminhos desconexos, passando pela Trajano, depois Roma e Nossa Senhora da Lapa, o Hóspede deteve por um instante em frente a Igreja, como que a suspeitar de que a paróquia tinha pego o santo dinheiro roubado a tanto custo. A mulher de preto apareceu como que do nada, com o cigarro apagado:

- Tem isqueiro?
- Fósforos… - disse o Hóspede, pegando a caixa distribuída como brinde pelo motel.
- Hum, o Rodeio, ou Alabamba. Ótimo lugar para se ir às escondidas com uma mulher. Quem é o marido?
- De quem?
- Dela, da sua Acompanhante.
- Como você sabe que?
- Ah, eu sei de muitas coisas, Hóspede. Sei inclusive do destino dos seus dois mil.

Como que combinado, os sinos da igreja começaram a soar anunciando o início do discurso do Padre. Nunca significou nada para o Hóspede, agnóstico confesso que era. Mas o assunto, o badalar um tanto quanto uníssono e, principalmente, a mulher que tudo sabia, o intrigou:

- Ótimo, onde está a grana.

A mão tocou o bolso e aqueceu o ferro morbidamente frio da arma.

- Desculpa, mas os sinos me chamam, e eu não costumo atrasar quando minha presença é requisitada. A propósito, talvez você precise de mim para achar sua maleta.

E com um rebolar lindo de morrer ou de matar, a Fé fez da igreja sua morada.

(continua, no melhor modo Buerão)

Os cães ladram - Truman CapoteAugust 25, 2006 2:37 pm

Texto nascido por obra e graça de Ana Gabriela, o mais adorável homem que já habitou a Terra.

- Sabe, Julio, eu vou virar lésbica.
- É mesmo, Gabi?
- É.
- Por quê?
- Eu já sou praticamente um homem: gosto de futebol, sei o que é impedimento, sei a diferença entre lateral, escanteio e tiro de meta. Sei até quando é gol.
- E quando é gol?
- Quando o juiz levanta o braço. E vai Corinthians!
- É, vai Corinthians!
- Mas enfim: veja o sexo, por exemplo.
- O quê?
- Sex… ah, deixa eu te mostrar um desenho.
*mostra*
- Viu?
- Ah, isso é sexo.
- É. Então, depois de fazer isso, eu gosto de fazer sabe o quê?
- Aquilo?
- Não, aquilo dá torcicolo. Eu gosto de calar a boca e dormir. Dormir, sabe?
- Nada de discutir a relação?
- Nada. Calar a boca e dormir e pronto.
- Nada de mimimi?
- Nope.
- Pô.
- Pois é, eu sou quase um homem, entende?
- Mais ou menos.
- Não tenho paciência de fazer charminho. Não sei fazer cara de fofa e esperar o moçoilo se manifestar. Não sei fazer olharzinho meigo.
- Ah, faz um beicinho aí.
- Não consigo! Tá dando cãibra!
- Toma mais uma cerveja…
- Taí mais uma coisa: eu bebo como homem. Me recuso a tomar drinques com guarda chuvinhas. Coisas docinhas e coloridas me fazem vomitar. Eu gosto de cerveja, tequila, uísque, pinga… e você já me viu bebendo pinga.
- Até bate o copo na mesa.
- Tá vendo? E minha voz, Julio?
- O que tem sua voz?
- Eu tenho voz de homem, droga.
- Não tem não…
- Claro que tenho. Eu já me ouvi em gravações. Voz grossa, rouca e falando mil palavrões por minuto: homem.
- Hum.
- Tá vendo? Até você concorda!
- Mas daí a virar lésbica…
- Veja, já que eu tenho voz de homem, bebo que nem homem, transo que nem homem… vou pegar mulher.
- Ah, pára.
- Não. Vou virar lésbica mesmo.
- Acho que você não deve fazer isso. Virar lésbica, não aquele isso do desenho.
- Por que?
- Veja a minha situação: eu gosto de discutir relação, eu lavo louça, eu abro portas, eu sei distinguir cores.
- E?
- E daí que você dará margem para que as pessoas pensem em outras opções. Droga, você irá contra o princípio Divino!
- Mas você é ateu!
- Ok, ok, deixe-me por em outros pontos: mulher é bom bagaraleo, assim como lavar louça é bom. Então podemos juntar os dois, entende?
- Mais ou menos. Você diz que eu posso ser o homem da relação.
- Claro! Mas nada disso te impede de virar lésbica por uma noite e fazer um filminho bem legal para esse seu amigo que te deu uma baita força agora.
- Sabe, isso dá um post…
- Um não, oito posts!
- Só precisamos de um final engraçadinho.
- É vero, senão vai parecer que cogitamos trocar de time…
- Cogitamos, Júlio?
- Olha lá a loira Gabi!
- Caraleo mano! Agita para mim que eu mando embrulhado na tua casa o rapaz da mesa dois…

Os cães ladram - Truman CapoteAugust 24, 2006 8:09 pm

A Lapa é de uma decadência estranha. Diferente da São Petersburgo de Crime e Castigo ou da Los Angeles dos livros policiais, não causa pena, amor, ódio. Nem ao menos charme o bairro tem. É como se padecesse de uma decadência fria, típica dos bairros encrustrados entre a pobreza do extremo e o classe média way of life dos bairros emergentes paulistanos.

Na rua Guaicurus, em frente ao Terminal Lapa, há o hotel sem nome, carinhosamente apelidado de "Rodeio". No quarto 12, o Hóspede chegou acompanhado e, enquanto gravata, meias, saia e calcinha eram atiradas para o alto, o Visitante cortou os sussuros e gemidos:

- Uma bela cena, eu diria.

O Hóspede e a Acompanhante, até então no calor da luta para ver quem se despia primeiro, gelaram a ponto dela quase morrer, ali mesmo, de choque térmico.

- Querida, desce e vai tomar uma cerveja ali no bar da esquina, que eu já já apareço por lá…
- Mas…
- Vai agora, eu resolvo isso e desço em cinco minutos.

Ao encostar da porta, o Visitante mal teve tempo de respirar. As mãos voaram da maçaneta para o colarinho, e do colarinho sua cabeça vôou para porta em tempo recorde:

- Na última vez que nos vimos, prometi que você morreria se eu o visse de novo!
- Eu lembro, eu lembro. Um encontro amistoso demais, sem dúvida.
- Então, agora é a hora?

Marcas de dedos apareciam, rubras, no pescoço do Visitante, como um câncer maligno agindo mil vezes mais rápido do que o Ebola. Uma cena animadora.

- Não, se você me deixar falar.
- Dois minutos! Se em dois minutos você não falar algo que preste, eu aperto seu pescoço até transformá-lo em um daqueles patês chiques de ganso.

Definitivamente, o Hóspede sabia ameaçar.

- Lembra do Caixa?
- Lembro dos meus dois mil reais!
- Enfim, cada um com a memória que convém…

As marcas rubras voltaram, e a respiração já começava a minguar.

- Tá, tá… então, ele voltou! E disse que vai te matar, só para parar de dizer que o roubo dos dois paus não valeram nada.
- Onde ele está?
- Agora?
- Não, no dia sete de setembro! Claro que é agora!
- Neste exato momento, num churrasquinho ali do outro lado da rua!

Se roubar 2 mil reais do Hóspede era pedir carona para a Morte, degustar do churrasquinho da Lapa era ir de carona e ainda mexer no som. Feito com a mais tenra e desconhecida carne de alguma coisa, matava mais do que as duas Grandes Guerras somadas. O Caixa já ia para o quinto espeto da noite quando a desconhecida, talvez marciana, carne entalou no pescoço:

- Dizem as más línguas que carne de gato não passa por lugares estreitos!

Ouviu algo parecido com "mas que merda é…".

- E também dizem, as mesmas más línguas, que você quer me matar, fazer o roubo dos meus dois mil valer a pena.

Um naco de algo desconhecido pulou, parando na sarjeta em frente à Estação Ciência…

(continua)

Pós-modernoAugust 22, 2006 3:56 pm

No dia 3 de setembro de 2020 os carros já voavam, os andróides eram escravos e a Dercy ainda era viva. No Masp, precisamente em frente ao finado vão livre e agora chamado de vórtex livre, ele aguardava uma pessoa, de um encontro marcado há quinze anos.

O que o levou a cumprir uma promessa de quinze anos era mistério. Ele continuava na mesma vida. Ok, tinha um número maior de blogs e uns escritos espalhados em algumas livrarias. Continuava solteiro e, de vez em quando, ia tomar uma Serra Malte para lembrar dos velhos tempos. Se tudo era tão igual, por que diabos da curiosidade seria menor do que antes?

Já dela, ele não tinha notícias desde quando, há 14 anos, o infortúnio se colocou entre os dois. Resolveram até esquecer. Pelo menos até aquela tarde de 2020.

Então às 14 horas ele estava na porta. Esperou um tanto e ela apareceu, da mesma forma que ele imaginou que ela apareceria 15 anos atrás. Estranho ela vir e estranho ele achar tudo igual.

- Você veio…
- E por que não haveria de vir?
- Sei lá… talvez por que não veio há 14 anos?
- Eu tive meus motivos…
- Inexplicáveis, mas acredito que teve mesmo. Talvez o motivo seja eu, ou os motivos, se preferir no plural.
- Não, não foi por sua causa. Foi por… ah, foi por outra coisa…
- Ok, ok. Escuta tem uma exposição no Masp, topa?
- Eu prefiro cerveja.
- Eu também.

Do Masp para o bar, e depois para o quarto mais próximo, foi um pulo. Não deu tempo de conversar muito, afinal de contas eram 15 anos de abismo. E como disse o alemão, "quando você olha para o abismo, o quarto de motel olha para você".

- Eu tenho que te contar uma coisa…
- O que?
- Eu tô casada…
- Há quanto tempo?
- Quatorze anos.
- Quatorze?! Desde então…
- É, desde aquele dia.
- Mas…
- Mas?

Ele engasgou. Queria matá-la ali mesmo. Queria que ela visse que o simples ato de não ter ido 14 anos atrás não a redimia vindo depois.

- Mas e agora?
- E agora estamos aqui. Me dá um cigarro seu…
- Como assim?
- Um cigarro, oras!
- Mas e seu marido?
- Que que tem?
- Você é casada? Deve ter filhos inclusive!
- Dois, um casal, uns fofos…
- E então?
- Sabia que eu parei de fumar?
- Se parou, por que então vai fumar?
- Por que eu quero ter algo nas mãos…
- Mas já tem.
- Tenho? O que?
- Eu, um marido e dois filhos!
- Você é um fofo! Sempre foi! Agora eu tenho que ir, meu marido está esperando. Hoje o Maurício tem apresentação na escola…
- Você deu meu nome para seu filho!
- Dei ué… você é inesquecível, sabia?
- Ah, claro!
- Nos vemos na semana que vem?
- Sim, na porta do Masp.

Três dias depois, o Masp foi demolido, pois o vórtex livre tinha uso como acampamento de vagabundos ou quem quisesse protestar contra o governo opressor do planeta OMFG 18. Para a sorte deles, o boteco e o motel continuam, perpétuos.

Não fosse, é claro, o problema de ereção que atinge a maioria dos homens, e que fez com que ele fosse mais uma infeliz vítima dos efeitos colaterais cardiovasculadores de um arcaico produto da Pfizer.

Do boteco para o papelAugust 18, 2006 4:34 pm

- Voltei querido!
- Dona Inspiração! Senta ae, estava com uma puta saudade! Vamos falar sobre o que hoje?
- Não sei, estou com essa idéia aqui:

Ele tinha acordado num bom humor muito acima da média. Não que fosse um rabujento de carteirinha, mas tinha seus problemas com o estresse, como todo mundo os tem. Mas o incrível mesmo era ter acordado depois do fatídico dia anterior.

Destoando, e muito, do estado de espírito dele estava o dia, cinzento, nem quente nem frio, mas também nada morno. Sabia que algo estava para acontecer, mas não tinha a menor idéia do que. Por via das dúvidas, resolveu rir antes, pois o proverbial rir por último para ele não era lá muito garantido.

Ela acordou com dor de cabeça e com a crendice das orelhas vermelhas a todo vapor. Doíam até, se é que isso era possível, tamanha força de vontade vinda do outro lado, das linhas hostis, porém não inimigas.

O dia também era cinza, mas batia em cheio com o estado de espírito dela. Aliás, estado lastimável, diga-se.

Eles se encontraram, naquele cinzento dia de humores eqüidistantes. Encontro extremamente acidental, onde ele veio com piadas, ela com pedras. Ele com sorriso, ela rindo amarelo. Ele esquecido o dia de ontem, ela recordando a cada minuto. Ele veio de vingança, ela veio de clemência.

- Então, sobre ontem…
- Dia quente de manhã, frio à noite, uma droga.
- Eu sei, eu tinha visto na previsão do tempo.
- E antes eu pudesse prever o imprevisto.
- Isso mesmo, imprevisto. Houve um imprevisto.
- Jura?
- É… eu sei que você vai me pôr na cruz…
- Não, não… hoje não tem sol. É dia ruim para crucificação.
- Hum… mas então, vamos almoçar para apagar o ontem?
- Não dá…
- Para apagar?
- Não, para almoçar…
- Por que? Sem fome? Só me acompanha então…
- Não é isso…
- O que é, então?
- É uma pena, eu tenho um imprevisto…

Não era coisa do imprevisto, pelo contrário, era mais que previsível. Era a Lei do Retorno, Ciclo do Universo, Código de Hamurabi, Vendetta, chame do que quiser. Ela sabia que o dia dela seria cinza porque o dele assim o foi ontem. E ele sabia que o dia dela será azul, mas não hoje, não agora, quando ele, de faca e queijo na mão, dava uma de Jack, O Estripador servindo-se num banquete para ratos. Retalha, corta, marca e quem sabe até devora o prato preferido dos roedores. Não literalmente, é claro. Mas para ela, talvez viesse a doer como se fosse. Ou não, o que faria com que ele perdesse todo o efeito balsâmico do momento.

- A vingança - ele pensou - é um prato que se come frio. Porém, dois minutos no microondas são mais do que suficientes para esquentá-la.

Do boteco para o papelAugust 17, 2006 4:00 pm

- Chegou, né?
- Pois é… chegou…
- O tempo tá mudando. Acho que vem frente fria. Deve ser da Argentina…
- É Dona Ansiedade, troca mesmo de assunto porque você está para ir embora.
- Estou?
- Opa! Andou fortinha até por esses dias, mas vai já já…
- Tá me enxotando, é isso?
- Mais ou menos. Você sabe que ainda vai ficar, até pelo menos a meia noite de hoje.
- E depois disso?
- Depois eu não sei. Agora vai embora que vem vindo outra aí e não quero vocês duas juntas…
- Outra? Quem?
- A Dona Fome…
- Bóra lá almoçar, Júlio…
- Seu cachorro!

E assim se encerra a incrível saga do almoço que não houve. Vai entender essas Donas, não é mesmo?

Pós-modernoAugust 16, 2006 3:54 pm

Ontem eu fui com a Blogagi tomar umas cervejas. Fechamos duas caixas de Serra Malte e, por incrível que pareça, eu não acordei de ressaca. A Monica Belucci ainda estava na cama quando eu levantei, fiz o café e levei para ela, ternamente agradecida e exuberante de tão nua.

Tomei um banho e fui à piscina, onde terminei de ler O ladrão que estudava Espinosa, do Lawrence Block. No autógrafo, a admiração do autor pelo meu mais recente trabalho, Homícidios linkados. Subi, escrevi mais algumas páginas do meu próximo livro, guardado a sete chaves. A empregada tirava o pó dos meus sete Pulitzers, o último de uma matéria classificada como fantástica, sobre as melhores cervejas do mundo. Achei um tanto meia boca, mas vai entender esse pessoal.

A tarde o produtor do meu próximo filme disse que o Sean Connery queria ser o ator principal da película. Disse à ele que aceitasse o velhinho, e o mesmo agradeceu me enviando um pôster do Indiana Jones e a última cruzada autografado. Guardei junto com os do Star Wars, pensando em que ordem os classificaria depois: entre os "muito fodas" e os "caraleos, nem sei o que dizer".

O pessoal da Academia disse que o próximo Oscar é meu. O Clint Eastwood disse o mesmo. O Tiago disse que é o melhor filme que ele viu desde O Massacre da serra elétrica. A Isabela Boscov, da Veja, criticou a produção do meu recente trabalho, o que significa que estou no caminho certo.

O Junior chamou para uma sinuca, onde ele ganhou todas as partidas. Tudo bem, mais tarde o pessoal sairia para tomar cerveja. Povo que não dorme e, mesmo assim, não reclama nem um pouco disso. A Gabi, com 1,65 de altura, ainda tinha um show para ir, do seu namorado baixista, que fazia ótimas músicas para ela. Lilhoca disse que ia sair com o Bernal e que daria um pulo no Opção mais tarde. Formam um belo casal e ele provavelmente participará do meu próximo filme.

Eric também era presença confirmada. Ia apenas fazer um show de rap na Vila Mazzei, então tinha tempo de sobra.  estava um pouco ocupado com a nova edição do Superman, mas daria um jeito. O Théo terminaria a resenha sobre o disco do Simple Plan para a Rolling Stone e iria, porque Taboão é bem perto de São Paulo. Alê Félix tinha acabado de descer em Brasília mas chegaria a tempo graças ao jatinho particular. O Milton terminaria algumas roupas da sua nova coleção e também apareceria por lá. Lelê deixaria o jornal dela um pouco tarde, as crianças na casa da avó, pegaria o marido e iria.

Então às dez estavam todos no Opção, para finalmente conhecerem a Monica Belucci. Tomamos ao todo umas quatro caixas de Serra Malte. Mesmo o Eric, que tinha acabado de operar o nariz, deu lá suas goladas. Mais tarde Monica disse que estava com sono, e em seguida deu uma piscadela inesquecível. Fomos para casa e trepamos loucamente, depois ela me trouxe duas cervejas, enquanto eu via o Corinthians sendo campeão do Mundo pela quinta vez consecutiva e pensava:

- Até que a minha vida não é lá tão mal assim.

As pessoas que faltaram ao encontro no Opção também estavam bem. Tinham morrido no trágico atentado ao World Trade Center, mas adquiriram 51% das ações da Microsoft**.

* Plágio da Gabi, que plagiou a Lilian e que provavelmente será plagiada pelo Théo

** Idéia chupinhada da Lilhoca. Obrigado dotôra!