Quando eu entrei naquele carro e tocava Police no rádio, imaginei que boa coisa não era.
- Police é muito bom… - eu disse.
- Pois é, temos muitas coisas em comum, tá vendo?
Eu imaginei que ela era suicida, na mesma hora, porque talvez só isso fosse parte das "coisas em comum".
Quando eu aceitei o convite, não sabia onde estava com a cabeça. Melhor, até sabia: estava entre as pernas, utilizando o mictório de um banheiro qualquer, de um bar qualquer. Mas depois lembrei que eu que havia feito o convite. Enfim, lá pelas tantas nos embrenhamos pelas ruas de uma perigosa região de Sampa. Talvez o PCC atacasse, sei lá. Chegamos e a fila do abate era grande. Sábado é dia de ir no motel, acho eu, então vinha a parte mais difícil daquela noite, a única pauta onde a cabeça de cima quase venceu a de baixo naquele banheiro sujo de um bar qualquer. Veio a conversa.
- Sabe, eu ando lendo Shakespeare.
Police e Shakespeare. Está tudo errado!
- Jura? Anda lendo o quê dele?
- O Fantasma da Ópera!
Sorte que eu não brocho com literatura. Pelo menos não ainda.
- Mas não é dele… - tentei argumentar.
- É sim, eu vi!
- Não é!
- É sim…
- Não é!
- É sim!
- Diabos, tira logo a calcinha, vai…
- Aqui não, aqui é a fila.
- Vai, anda, tira logo "Desdêmona"!
- Ah, isso eu sei, é Walter Scott!
- Não é! É Shakespeare!
- Não, é Walter Scott!
- Puta que o pariu… olha, vagou um quarto!
- Êêêêêba…
"Êêêêêba…"? Prometi que nunca mais pensaria com a cabeça de baixo. Questão lógica, ela é menor que a de cima. Bem menor. Talvez a de cima seja mais estúpida, mas vai impor suas idéias pela força.
- Olha, vamos fazer assim, eu faço um strip pra você…
- Hum…
- Olha só, você gosta?
- Opa! Tanto quanto o Humbert Humbert gostava de ninfetas…
Por que eu ainda dou corda?
- Aquele do Tolstói! Ótimo livro!
- Não, do Nabokov…
- É do Tolstói!
- Tá, tá, tira a roupa, vai…
- Tá gostando?
- As mulheres de trinta são ótimas…
- Sim, sim, já disse o Flaubert…
- É o Balzac…
- Não, é o Flaubert!
- Puta que me pariu! Chega de falar de livros, é sério…
- Tá bom, tá bom, então eu vou fazer um strip igual aquela moça daquele filme do Scorcese, qual o nome?
- Cassino? Não era strip, era um boquete…
- Não, o Femme Fatale! Lembrei! Êêêêba!
"Êêêêba"? De novo?
- Não, é do de Palma…
- Do Scorcese!
- Faz assim: imita a Sharon Stone no Cassino e tá tudo bem. Se quiser, pode até me chamar de Robert De Niro que eu não esquento…
- Tá bom, Al Pacino…
- Hein?
- O filme é com o Al Pacino…
- Chega! Finge que é cinema mudo!
E pela primeira vez na história, eu acho, aconteceu o sexo oral com marcha militar. Porque ela insistia que o Chaplin era Hitler.

Fóda!!!!
Comment by Junior — July 25, 2006 @ 6:51 pm
eu sou o tipo de ignorante que dá um sorrisinho de canto de boca pra um post desses… conheço todos os nomes, mas se fossem duas colunas “ligue o nome à obra”, iam passar 4 dias e meio e eu ia errar.
tsc
Comment by vanessa — July 25, 2006 @ 7:21 pm
Bah, falei que o TEXTO ficou FÓDA! Tem que traduzir tudo?
Comment by Junior — July 25, 2006 @ 9:07 pm
Sexo oral com marcha militar não dá pra perder o compasso (heh)
Comment by Lilhá — July 25, 2006 @ 9:23 pm
Pô, meuô.
Comment by Gabi — July 26, 2006 @ 3:14 am
Também sou mó ignorante.
Desdêmona é Shakespeare??? =O
(mentira, isso até eu sabia!)
Comment by Daniela — July 26, 2006 @ 4:55 am
haha!
altamente ácido e ágil! gostei.
Comment by cristiano — July 26, 2006 @ 5:44 am
Vocês transam?
Comment by Zé — July 26, 2006 @ 6:38 am
Eu já teria brochado muito antes…
PS: Eu li “Lolita” do Nabokov, e nunca entendi pq o cara se chamava Humbert Humbert.
Mas isso não tem nada a ver. Ou tem?
Comment by Bruno — July 26, 2006 @ 12:32 pm
Eu iria cair na besteira de ligar Desdêmona ao Walter Scott.
Comment by Raphael — July 26, 2006 @ 1:06 pm
Caralho o Luís Fernando Veríssimo tá escrevendo aqui?? Não sabia, velho!
Comment by Tiago — July 27, 2006 @ 5:31 am
*pô, assim eu não aguento!*
Comment by Lívia — October 14, 2006 @ 4:01 pm