Andando pelas planícies de Canaã (atual Penha), Pedro, Matheus e João, bem guarnecidos do vinho da Galiléia (atual Jardim São Lucas), cantavam:

- O Judas é um companheirô, o Judas é um bom companheirô, o Judas é um bom companheiiiiirô… ninguém pode negar!

Nisso chega Jota Cê, e vai logo dando fim à homenagem:

- Bom companheiro um caraleo! Ele vai me trair por trinta dinheiros!

“Ih, lá vem o chato” pensaram o três. Estavam de saco cheio daquela história toda de filho do Pai com o Espírito Santo. Achavam tudo muito gay.

- Pô JC, dá um desconto pro Judas. O cara é maior gente fina. E outra, nós é parceiro na cachaça. Aqui ninguém é dedo de seta não, tá ligado?

Chega Lucas e percebe o clima de animosidade no ar. Tenta sair pela tangente:

- E ae rapaziada, firma? Seguinte, vai rolar um partido alto lá na Judéia (atual Largo da Batata). A gente podia ir tomar umas, depois dar uma sambada, pegar umas mina e tal? E ae?
- Pô irmãos, ia chamar vocês agora pra comer um pão com vinho lá em casa…
- Ah Jota Cê, é sempre um saco as reuniões na tua casa. Você sempre vem com aquele negócio de filho do Pai e tal… – protestou Matheus.
- Perdoai-vos Pai, eles…
- Lá vem ele de novo com essa porra toda! – interrompe Lucas
- Madalena vai? Madalena vai? Madalena vai? – perguntou Pedrão, sempre doido pela Madá.

Acabaram indo, os doze manos do maluco de Nazaré (atual Vila Menck), à casa de Jota Cê para comer o famoso pão da Dona Maria. Todo mundo meio entediado, doido para ir chacoalhar as ancas. Jota Cê resolve que é hora de animar a patota divina:

- Ae, tô com o CD novo do João Gilberto… vamô por pra rolá?

E todos se perguntando por que diabos aqueles caras não estavam padecendo na cruz. Tanto Jota Cê quanto João Gilberto.

Após o jantar na casa do Jota, Pedrão, Matheus, João e Judas iam para casa, quando o primeiro teve a idéia que mudaria a história:

- Judas, tu topas dar um pipoco no Jota? Judas, tu topas dar um pipoco no Jota? Judas, tu topas dar um pipoco no Jota?
- Quanto morre na parada? Além dele, é claro?

Judas era o Jerry Seinfeld da época, cabe notar.

- Trinta dinheiros, mais dois milhões de dólares em títulos do governo americano, ao portador…
- Trinta dinheiros, mais dois milhões de dólares em títulos do governo americano, ao portador…
- Trinta dinheiros, mais dois milhões de dólares em títulos do governo americano, ao portador…

Pedrão sempre repetia três vezes as coisas, sabe-se lá por quê. Alguns dizem que era delirius tremens. Outros, que a culpa era da Madá.

- Bôra!

Só que Judas era um cara esperto. Já tinha se comprometido com os romanos e, por trinta dinheiros, além de uma casa no Lácio (atual Pirituba), havia prometido dedurar Jota Cê para o governor romano na Terra Santa, Pilatos Schwatzemberg.

Aconteceu que os romanos pegaram Jota Cê no Jardim das Oliveiras (atual Jardim dos Cunhas) levaram para o morro mais próximo, passando pela Via Crúcis (atual Rodovia dos Imigrantes) e deram com o crucifixo na cabeça dele. A história causou comoção nacional, menos para Pedrão, que assistia indignado:

- Judas fela da puta!
- Judas fela da puta!
- Judas fela da puta!

E até hoje Judas vive - podre de rico - na Riviera Francesa (antiga Gália).